#54 — A verdade ainda importa?
Quando a realidade é manipulada para beneficiar uma narrativa
A verdade importa menos do que você imagina.
Os fatos agora são ignorados, o que vale é a história que é contada.
Vivemos um momento de pós-verdade, onde a verdade pouco importa para a opinião pública. Causar grandes reações na audiência, atacar crenças e superstições têm mais impacto do que simplesmente expor informações como elas são.
Com o uso acessível da Inteligência Artificial, será cada vez mais impossível enxergar o que é real e o que não é.
Não importa se algo aconteceu ou não — o que importa é quem consegue convencer mais gente. A verdade não morreu — ela se tornou irrelevante.
Eu estou relendo 1984, esse livro que já falei sobre algumas vezes aqui nessa newsletter. Eu li pela primeira vez na faculdade, então achei que já era hora de voltar pra essa história, ainda mais pelo momento que vivemos.
O livro, escrito por George Orwell em 1949, narra a história de Winston Smith, um homem comum que trabalha no Ministério da Verdade, um órgão público do governo. Nesse ambiente, Smith reescreve fatos históricos de forma a beneficiar o Estado.
Essa sociedade é comandada pela Ingsoc, o partido socialista inglês e o líder desse grupo é o misterioso Grande Irmão. Todos devem viver conforme as regras do partido, não há espaço para questionar o sistema.
Se rebelar, por exemplo, é impossível. A Ingsoc, cria a novilíngua, o idioma oficial do partido. O objetivo é que no vocabulário dos seus falantes, não existam palavras que permitam expressar qualquer descontentamento.
Portanto, se não há as palavras certas, não tem como pensar em protestar contra aquele regime. Mas pensar, no entanto, já é crime.
Na novilíngua, existe o termo “crimepensar”, que é quando o indivíduo tem algum pensamento que é contrário aos objetivos da Ingsoc.
E o simples fato de pensar contra o partido, se um dia descoberto por alguém, já pode ser considerado motivo de aniquilação.
Há também o “duplipensar”, termo que se refere a quando o indivíduo tem crenças contraditórias sobre um mesmo tema. E isso acontece por manipulação psicológica. Você sabe que algo é mentira, mas aceita aquilo como verdade para se adequar às necessidades do partido.
Percebem como isso se encaixa perfeitamente quando falamos sobre manipulação da realidade?
Os fatos aqui pouco importam.
A história pode ser reescrita a qualquer momento.
Saindo um pouco agora de 1984, o filósofo e escritor francês Michel Foucault afirma que a verdade não é neutra, mas produzida por estruturas de poder. O que nós consideramos como verdade depende de quais instituições têm o poder de definir o que é aceito como verdade: a mídia, a ciência, o Estado.
Vocês se lembram que, nos primeiros meses da pandemia, era muito difícil saber quem estava falando a verdade sobre o vírus?
Naquele momento, trouxemos pra televisão, por exemplo, médicos famosos e respeitados pra afirmar o que deveríamos fazer, como se proteger. Ficamos meses acompanhando canais de YouTube de biólogos e cientistas.
No entanto, não era difícil ver pessoas inclinadas a disseminar falsas informações ou até mesmo produzindo conteúdo sem embasamento técnico. A forma como essas pessoas vendiam isso fazia com que muitos tomassem aquilo como verdade absoluta.
Quais foram os maiores absurdos que vocês ouviram sobre o vírus?
Que foi fabricado pela China de propósito;
Que havia interesses geopolíticos na disseminação do vírus.
Existiam coisas que eram ridículas, mas muitos acreditaram. E por que?
Por ignorância, talvez?
Por acreditar que tem uma informação que ninguém mais tem?
Para prejudicar o adversário político?
E isso se agrava quando você tem um líder, um governante que não se importa com os fatos, mas com a manipulação deles a seu favor.
Não só durante a pandemia, mas frequentemente vemos governantes e autoridades usarem de sua posição para disseminar a mentira política e propaganda.
Hannah Arendt escreve sobre isso em “Verdade e Política”, mostrando como regimes autoritários distorcem a realidade da forma que lhes convém.
Você passa a acreditar que seu vizinho, que tem uma religião diferente da sua, é seu inimigo. Que aquele imigrante do seu serviço é o culpado pelo declínio da economia.
Arendt alerta que a substituição de fatos por narrativas ideológicas destrói a sociedade. A mentira moderna busca reorganizar o mundo, criando uma realidade alternativa onde os fatos são apagados.
Essa manipulação é crucial para regimes totalitários, pois isso dá margem para que pessoas comuns cometam crimes horrendos, pois são incapazes de reflexão.
Se antes o problema era distorcer a verdade, hoje talvez o problema seja mais radical: a realidade já nem precisa mais existir.
O sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard afirma que vivemos em uma hiper-realidade. O que vemos nas redes sociais e na mídia substituem o mundo real.
Sabe quando você conhece uma trend ou um assunto polêmico que está todo mundo falando sobre. Mas lá fora, no seu trabalho, na academia, ninguém faz a menor ideia do que seja isso?
As redes sociais não mostram o mundo, elas substituem o mundo.
Todas as expressões, trends, assuntos, discussões. Talvez elas importam muito pra você, mas talvez sejam apenas um recorte, algo que nem existe na realidade.
Enquanto você está sentado na frente do seu celular, imerso em uma thread sobre o cancelamento de uma marca, se você levanta e vai comprar pão, o mundo segue da mesma forma.
Não é exagero dizer que vivemos pelo espetáculo, de pão e circo.
Segundo Guy Debord, teórico e filósofo francês, a realidade é mediada por imagens, representações. Nós vivemos consumindo experiências ao invés de vivê-las.
Isso se encaixa perfeitamente na forma como usamos as redes sociais, como é mais importante tirar aquela foto aesthetic do prato de comida do que realmente aproveitá-lo, sentir seu sabor ou curtir a companhia de quem está com você.
Às vezes essa comida nem estava gostosa, mas era um restaurante hypado, então você tem que postar, né? A estética está acima da verdade.
Mas se engana quem pensa que somente as redes sociais são responsáveis por vender uma versão editada da realidade.
Em Amusing Ourselves to Death, Neil Postman, o escritor e educador americano argumenta como a televisão e a cultura do entretenimento transformam o discurso público, substituindo o pensamento racional e o debate político sério por superficialidade e espetáculo.
O livro foi publicado em 1985, durante a era da televisão em massa, em um momento transgressor, onde os meios eletrônicos passaram a moldar a forma e o conteúdo da comunicação.
Postman argumenta que cada meio privilegia determinados modos de pensar. Enquanto a escrita favorece a razão e a lógica, a televisão promove o entretenimento como principal forma de discurso público.
Acho que podemos pegar como exemplo os últimos debates presidenciais aqui no Brasil. Qualquer país sério acharia um show de horrores como nossos candidatos se colocam de frente pras câmeras.
Eles não estão interessados em debater propostas, discutir problemas sérios do país. Tudo é sobre performance: cativar o espectador, gerar frases impactantes e vazias que depois viram cortes nas redes sociais ou memes.
Nos bastidores, eles apertam as mãos, dão tapinhas nas costas, enquanto nós, o público, nos digladiamos defendendo quem nem se importa com nossa existência.
O que importa é jogar cadeira no candidato, virar meme, ganhar seguidores. Percebem como nos distanciamos da verdade?
A verdade aqui foge dos holofotes, ela não importa.
Vence quem viraliza mais.
É nesses momentos que percebemos que 1984 é uma história cada vez mais atual. As pessoas sabem qual é a verdade, mas escolhem ignorá-la para manter a narrativa que lhes convém. É o crime de duplipensar.
Mas como nós podemos resgatar a verdade?
Essa é uma pergunta muito difícil.
A um nível individual, eu acredito que escolher a verdade começa com pequenas mudanças diárias. Em investigar dentro de si se aquilo que você está vivendo é ou não pela verdade.
Se você está em busca de:
Uma vida que é para si ou para os outros;
Procurando ter coisas porque precisa ou apenas por luxo ou status;
Se você promove bem-estar para o maior número de pessoas.
Agora, a nível social, as coisas se complicam.
Não temos total controle sobre como as narrativas são transmitidas para nós, mas temos o poder de questioná-la, em trazer a luz a aquilo que é claramente falso, que vai contra a ciência ou a razão.
Mas para isso exige reflexão. Em não se deixar ser dominado pelo espetáculo, em ser capaz de se distanciar da situação e enxergar aquilo com um racionalidade — o que nem sempre é possível, pois somos seres sensíveis e às vezes agimos pela emoção.
Entretanto, acredito que seja um dos caminhos. Se você fizer isso, se eu faço isso, meus vizinhos, amigos e parentes, teremos uma massa que não aceita apenas a narrativa pronta — mas a questiona.
No entanto, talvez seja utópico da minha parte pensar assim, um sonho muito distante, visto a pobreza intelectual e material do nosso país.
Mas é por isso que a gente se expõe todos os dias, conversa com pessoas, escreve textos, grava vídeos, na esperança de que alcance meia dúzia de mentes pensantes.
Deixo a recomendação do livro 1984, do George Orwell. É uma leitura fácil, não dá vontade de parar de ler. No entanto, é pesada e te deixa angustiado de tão real e atual.
Até o próximo texto, caro leitor.
— Letícia Souza.










